Fundação Dom Cabral libera nova versão da pesquisa Desafios para a Sustentabilidade e o Planejamento Estratégico das Empresas. Neste post estamos contextualizando sua aplicação e analisando de forma ampla os principais resultados. Confira.
Conversa de doido
A linha do tempo da sustentabilidade não tem pouca idade. Em certa medida, poderíamos dizer que desde que o homem é homem se preocupa com as condições de sobrevivência de seu entorno. Desde a pré-história (segundo meu amigo Percival Caropreso da Setor Dois e Meio).
Ocorre que o entorno foi-se tornando cada vez mais complexo e as variáveis necessárias de se observar e controlar foram se tornando cada vez em maior quantidade, complexidade e interdependência.
Tempos atrás, quando estava em um cliente tratando da “agenda da sustentabilidade”, dei-me conta que estávamos há tempos falando sobre as múltiplas áreas temáticas que deveriam ser trabalhadas, o orçamento, o posicionamento da empresa, as oportunidades e riscos e por aí afora, quando pensei: afinal, porque estamos mesmo fazendo tudo isso ?
É obvio: sustentabilidade.
Mesmo ? Será que temos clareza do que estamos falando ? Em termos concretos, do que estamos tratando ?
E então vinham as respostas conhecidas que sempre acabavam com “…gerações futuras”. Dava-me um certo vazio ao ouvir aquelas definições, pois não conseguia ver, de forma concreta, onde estavam as mudanças que perseguíamos.
Falávamos em engajar partes interessadas, mas ao mesmo tempo a empresa não sabia o que elas demandavam. Falávamos em melhorias de condições sociais, mas poucos conseguiam me dizer objetivamente quais condições sociais estávamos perseguindo visando sua melhoria. Quando perguntava então sobre os níveis de melhoria que perseguíamos, a conversa parecia realmente de doidos.
Talvez isso seja comum, dada a natureza do tema.
Mas ao mesmo tempo vejo que a sociedade, quando diante de grandes catástrofes (como o recente caso do Rio de Janeiro), não se comporta dessa forma inconscientemente confusa. Ninguém duvida das ações imediatas que precisam ser tomadas, como resgatar os sobreviventes, acolher os corpos, acomodar os desabrigados.
Para melhor ilustrar a sensação a que me refiro é como se, no caso citado, tivéssemos criado um “comitê” para discutir o que fazer e este grupo de pessoas começasse a propor coisas como:
- como fazer para evitar que chova ?
- como fazer para que as casas dos moradores sejam locais agradáveis para se morar ?
- como fazer para que todos possam ser ouvidos para decidirmos, de forma coletiva, o que fazer ?
Pois é mais ou menos essa a sensação que estou tentando descrever para você em relação a como me sentia. Não sei se você já sentiu isso, mas caso ainda não tenha espero que comece a prestar mais atenção a esta questão: afinal, porque estamos trabalhando com sustentabilidade?
Não valem as respostas de sempre.
É obvio que a sociedade vai mal, que o meio-ambiente vai mal. Mas vai mal onde ? De que forma ? Em que intensidade ? O que podemos fazer a partir da perspectiva de uma empresa para ajudar a reverter esse quadro ?
Se fôssemos governo, ONG, qualquer outra coisa que não uma empresa, creio que não teríamos muita dúvida acerca do que responder. Afinal, são tantas coisas a serem corrigidas que existe espaço para todos os gostos, crenças, ideologias e orçamentos.
Mas, sob a perspectiva de uma empresa, qualquer ação que venha a empreender, jamais deixará de ser uma empresa, de buscar resultados, de crescer para não sucumbir (apesar de muitos discordarem disso, eu acredito piamente).
Gritos do outro lado do muro
Enquanto as referências que utilizávamos para guiar nossos passos eram as conhecidas (como GRI, Indicadores Ethos, ISE e outros), que praticamente cobrem os aspectos do modelo de gestão das empresas, um grupo de professores da Fundação Dom Cabral tentava responder esta pergunta de um jeito muito mineiro (no sentido carinhoso do termo): claro, objetivo, simples, pragmático.
Em 2006, era publicada a primeira versão de um estudo chamado “Desafios para a Sustentabilidade e o Planejamento Estratégico das Empresas”, onde a palavra genérica “Sustentabilidade” era traduzida para o Brasil de verdade. Esse Brasil de desemprego, de subemprego, de falta de escola pública, de corrupção e de tantas outras mazelas que vivemos, ouvimos e sentimos todos os dias, a tal ponto de soar-nos como algo já incorporado à paisagem natural e à estética do País.
E a pergunta era simples: empresa, o que você está fazendo para isso ?
Agora parece que começamos a falar de sustentabilidade de verde e amarelo. E mais, as respostas para isso começaram a serem perseguidas (ao menos por onde eu tenho passado e utilizado essa pesquisa para discutir a agenda da sustentabilidade).
Como conversa de louco que parecia antes, aparenta que agora alguém do lado de fora do manicômio estava bradando algo que começava a fazer sentido, que permitia-nos pensar um pouco mais sobre como poderíamos deixar a prisão da sustentabilidade e criar um bloco de rua para tratar dos problemas que realmente mereceriam de foco da sociedade brasileira e global.
Mas do que falavam ?
Segundo o estudo da Fundação Dom Cabral, os desafios podem ser assim apresentados em um nível macro:
Olhando de forma rápida, parece dizerem o mesmo que os demais já falam quando o assunto é sustentabilidade. Mas eles não param por aqui. Descem mais um nível de detalhamento, como por exemplo:
Pronto: chegamos ao nosso pais, ao lócus da sustentabilidade concreta, às questões que apesar de locais têm também influências globais.
Aí estão as pistas que precisamos (como sociedade) buscar entender e contribuir com soluções objetivas e, da perspectiva de cada negócio, ligadas ao eixo central dele.
Por exemplo, no item Sistema Político Partidário, mencionei alternativas em meu post Lucro e Democracia, simbiose perfeita ? . Em relação ao Demanda por Energia, mencionei outras alternativas em meu post Vejam as formigas ! E os elefantes passam… . Por fim, no item Liderança para a Sustentabilidade, trouxe algumas reflexões no post Sustentabilidade: asexuada ?.
Pois é, como se pode perceber, para absolutamente todos os desafios concretos trazidos à tona pela Fundação Dom Cabral, há enormes possibilidades de as empresas agirem, mantendo-se centradas em seu eixo de negócio.
Em meu post Cadê o foco?, apresentei o método pelo qual utilizamos este rico material disponibilizado pela Fundação. A metodologia proposta tem se mostrado muito eficiente em mais de 20 aplicações práticas que já fizemos junto a empresas para discutirem o tema da sustentabilidade no contexto da agenda estratégica.
E agora, em 2010, o que dizem ?
O estudo da Fundação Dom Cabral recém lançado trabalha com a base 2008/2009 de pesquisas realizadas junto a empresas de diversos setores e portes (maiores detalhes sobre a amostra constam no estudo). Vou direto ao ponto, ao quadro que mostra o quanto as empresas estão considerando os desafios em suas estratégias. Os resultados são, minimamente dizendo, interessantes.
Uma possível primeira análise está no quadrante inferior esquerdo. Neste quadrante, estão os temas considerados pouco importantes para as empresas pesquisadas e que portanto não estão sendo considerados em suas agendas estratégicas.
Observe, por exemplo, que temas como Habitação, Violência, Segurança Alimentar e Envelhecimento da População constam nesse quadrante. Portanto, se dependêssemos das empresas pesquisadas, nada estaria sendo dirigido para isso pela perspectiva do negócio. Talvez porque as empresas entendam que temas como estes são tipicamente de governo e/ou que não vislumbram como conectar seu negócio a tais necessidades da sociedade.
Por outro lado, o quadrante superior direito, ou seja, dentre os desafios considerados importantes e presentes na agenda estratégica, o que se destaca em primeiro lugar é o que se refere ao “Comprometimento com valores e princípios”.
Estranho não ? De quais valores e princípios será que estão falando, se moradia, violência e segurança alimentar são considerados como não importantes para seus negócios, uma vez que a amostra dos setores econômicos que responderam a pesquisa apresenta-se como segue:
Fica aí para pensar.
Seguindo adiante
Como se percebe, o desafio não é pequeno. A mudança que preconizamos para as organizações quando falamos de sustentabilidade estão realmente em um patamar que talvez ainda não consigamos compreender em sua profundidade e abrangência.
Pergunto-me se não deveríamos fortalecer cada vez mais o conceito de “Social Business”, que não se trata de uma ONG que consegue recursos para se auto-sustentar, muito menos de empresas que abrem mão de seus resultados de forma filantrópica.
Parece que o nosso real desafio é estimular os empresários a olharem para estes desafios como reais oportunidades de negócio. Talvez seja esse um caminho muito interessante para criação de novos negócios, comprometidos com novos e necessários valores.
Chamam-me muito a atenção casos como do Grameen Bank e de todos os negócios desenvolvidos por Muhammad Yunus (parceria com a Danone, telefonia celular, etc). Estes são negócios que não precisaram “incorporar” a sustentabilidade em seu bojo. Incorpora-se o que está “fora” do corpo, como diz o termo. A sustentabilidade nesses negócios está, mais do que no DNA, na alma.
Mas isso, os negócios sociais, ficará para novos posts.
Por fim, mas não menos importante, caso queira acessar o estudo completo da Fundação Dom Cabral, clique aqui.
Não poderia finalizar sem deixar meus cumprimentos aos colegas Cláudio Boechat e Roberta Paro da Fundação Dom Cabral, por terem nos apresentado os resultados deste ciclo 2008/9 e parabenizá-los pelo excelente e necessário trabalho que precisa continuar e se aprofundar nos próximos anos.
É isso. Vou ficando por aqui.
AERTON PAIVA
aerton.paiva@gestaoorigami.com.br





Olá Aerton,
Ainda não tivemos a oportunidade de nos conhecer pessoalmente, mas sei que temos muitos amigos e colegas de trabalho em comum, além do grande desafio de apoiar as empresas nessa trajetória rumo ao desenvolvimento sustentável.
Em primeiro lugar gostaria de parabenizá-lo pelo blog e pela generosidade. Já estava mais do que na hora de “sairmos dos nossos casulos” e começarmos a trocar mais e achei a sua iniciativa muito legal.
Já que a idéia é compartilhar, tomo a liberdade de compartilhar com você um breve texto que escrevi no ano passado, quando o Evandro do Afroreggae morreu e que traz o mesmo tom de resgate de sentido que você abordou nesse post.
Deixo um abraço com a torcida de que possamos nos encontrar para compartihar em breve. Aí vai:
Amigos,
Os que me conhecem sabem que sou mais de bastidores e jogo de xadrez do que de palco e karaokê, mas tem horas que a voz vem tão forte que não dá para segurar. Como não tenho site, blog ou revista, resolvi usar o “tradicional” e-mail para colocar para fora o que está aqui dentro.
Li no Estadão hoje: “PMs são presos por roubar ladrões, deixá-los fugir e não socorrer vitima que agonizava”. Vítima que agonizava??!!!
Todos os que trabalham com sustentabilidade sabem que hoje a “bola da vez” é a tal da materialidade que pressupõe o tal do engajamento. Eu mesma sou professora de engajamento, consultora de engajamento, facilitadora de engajamento…mas o que é e para quê serve esse engajamento mesmo?
E o que a morte do Evandro tem a ver com o raio do engajamento? Talvez essa ligação esteja só dentro da minha cabeça, mas aqui dentro essa ligação é tão clara!
Quando foi que começamos a nos preocupar mais com os fatos do que com as pessoas por trás desses fatos? Quando foi que começamos a nos relacionar com papéis e não com pessoas? Quando foi que começamos a engajar e “sustentabilizar” para preencher questionário de Dow Jones, ISE e GRI sem de fato ouvir e considerar o que essas pessoas dizem? Por que mesmo estamos fazendo isso tudo? Será que viramos todos (“sustentabileiros” ou não) burocratas da sustentabilidade?
Não era uma vítima que agonizava, NÃO ERA QUALQUER UM!!! E não que eu ache que uma vida vale mais do que outra, mas era o Evandro. Tive a oportunidade e o privilégio de trabalhar por um curto período de tempo perto do Junior e do Evandro. Eles sim sabem engajar! Eles sim sabem “sustentabilizar”! Eles sim sabem conectar!
Quem conhece o trabalho do AfroReggae sabe do que eu estou falando. Eles sim tinham relacionamentos com indivíduos. Eles praticavam a tal da interdependência que nós teorizamos. Como diz o Junior “Tamo junto e misturado”. Eles engajaram presidentes de bancos com presidentes de ONGs, traficantes, com paulistinhas bem nascidas (eu, no caso), artistas com a favela, facções inimigas do tráfico, policiais e bandidos, favelas do Brasil com favelas da Índia, etc..
Lembro que quando saí da empresa multinacional onde trabalhava e que apoiava um dos projetos do AfroReggae e liguei para o Junior para falar que uma outra pessoa cuidaria do projeto que tínhamos em parceria com eles, ele me disse uma coisa que eu nunca vou me esquecer: “O que me importa não é a doação. Para onde você vai? O que me importa é perder uma pessoa que de fato se importa. E agora, como vai ser?”. Ele ficou bravo de verdade.
Isso é engajamento! Engajamento de pessoas, engajamento de propósitos, engajamento de valores. Não sei como, mas precisamos retomar o propósito da sustentabilidade, porque estou convicta que não há índice de sustentabilidade, prêmio, nova tecnologia, produto “verde” diretriz ou política que vai nos fazer mudar a rota com a velocidade que precisamos se não voltarmos a nos conectar. Conexão com a nossa própria humanidade para que possamos então buscar o real engajamento com os outros.
E daí, talvez, não nos seja mais possível passar o ano todo preenchendo questionários para ganhar prêmios e selos sem lembrarmos de que é por causa das pessoas que estamos fazendo isso, fazermos belos discursos e humilharmos nossos funcionários, nos auto-intitularmos líderes de sustentabilidade e não conseguirmos trabalhar em rede, promover painéis de diálogo com stakeholder sem de fato ouvir e considerar o que essas pessoas nos dizem… ou passar ao lado de uma pessoa, um indivíduo, um ser humano, um líder, um guerreiro agonizante e ignorá-lo porque a nossa única preocupação é levar um casaco e um tênis de marca para casa.
Oi Priscilla
Muito prazer em te conhecer. Confesso que lendo o teu email fiquei com a seguinte sensação: a ficha está caindo. Talvez em nós primeiramente porque estamos vivendo essa questão de tentar “desentortar o que torto está” mais do que outros. Mas confesso que ainda sou e estou muito otimista, pois creio que por trás de cada executivo que toma decisões importantes todo dia existe um pai de família, alguém que ainda há de entender que fazer tudo isso não precisa de grandes explicações a não a que “é essa a coisa certa de ser feita”.
Acho que você deveria vir mais para o palco. Estamos precisando fazer desse Karaokê minguado um coro de milhões de vozes como a sua.
Super abraço e muito obrigado pelas palavras. São manifestações como estas que me estimulam a ficar horas escrevendo ou pouco do que vivo na prática para que dessa troca tenhamos cada vez mais uma sociedade que se aprimore continuamente.
Aerton
Aerton,
Obrigada pelo post. É sempre bom ver um trabalho nosso amplificado por um especialista no assunto como você. Você enfatizou precisamente a inquietação que gerou a pesquisa – do que afinal estamos falando, por trás desses termos tão em voga? O que estamos de fato trabalhando pra mudar, nas empresas? E o que se perde em pontos ‘cegos’ (deliberadamente ou não)?
Em 2005, eu havia acabado de voltar pro Brasil e notei como havia se disseminado o termo responsabilidade social. Até em propaganda de farmácia o termo aparecia. Sabia de sua associação com projetos sociais e filantropia (enquanto sustentabilidade hoje, pra muitos, se restringe a ‘meio ambiente’), e parecia estar na hora de verificar do que afinal todas aquelas empresas “engajadas” estavam falando, já que os termos tinham (têm…) interpretações variadas. Os objetivos do Observatório do núcleo de sustentabilidade da FDC casaram totalmente com essa idéia e deram abertura pra uma pesquisa que podia soar um tanto exótica para o ambiente de negócios, falando menos dos temas de gestão em si (familiares), e mais dos objetivos finais relacionados ao ‘desenvolvimento sustentável’ (outro conceito que se perde por detrás do versátil ‘sustentabilidade’). Objetivos estes que a gestão deve se esforçar por atingir, ou no mínimo acompanhar, ‘estar antenada para’, enfim. E principalmente, refletir, no âmbito mais macro, da estratégia: será que esse ‘desafio’ X realmente não tem nada a ver com o meu negócio? E continuará não tendo, nem agora, nem no médio ou longo prazos (mesmo agora que acabamos de compreendê-lo melhor)?? Não é um exercício simples, pois o link com cada negócio nem sempre está mastigado via Indicadores Ethos ou GRI, por ex., e o pensamento estratégico é menos particularizado…. e daí a oportunidade para os que se antecipam nessa reflexão.
A idéia do Mapa de Desafios é justamente apoiar as empresas nessa investigação/reflexão individual, daí a grande satisfação em ver que esse esforço é efetivado por meio do seu trabalho.
Em tempo, uma correção: sou paulista! (trabalho pra FDC daqui de São Paulo) – mas muito à vontade com o jeito mineiro de trabalhar, rs…
Abraço,
Roberta